Sul Fashion Week | Entrevista Vish!

Posted on 15/06/2011 por

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Luiz Wachelke e Andreia Passos assinam as coleções da marca Vish! desde 2007, ano em que nasceu. Sua identidade pode ser resumida em um lifestyle criativo, bom de ver e de usar. Ambos se completam com seus repertórios em design gráfico e de moda e o resultado não poderia ser diferente.

A Vish! já foi nosso assunto e ao que tudo indica continuará sendo por muito tempo. O que mais falar sobre a marca?

Luiz: A marca começou há quatro anos, ela é bem fundamentada em moda e design gráfico. Quando a gente começou a trabalhar juntos, o primeiro produto que a gente criou foi a camiseta. A gente sempre tentou pensar em como fazer uma camiseta com ponto de vista de moda e com uma informação de design gráfico legal. Trabalhar bem a estampa, uma estampa autoral, uma estampa que tivesse um toque diferente, que fosse realmente diferente do que a gente encontrava. Tudo começou com o design t’shirts, que são camisetas com assinatura. À medida que a marca foi crescendo, foi ganhando mais espaço e se aventurando em outras áreas. A gente sempre teve o desejo de abraçar o estilo de vida completo, não só um produto. Então a gente manteve o mesmo ponto de vista, o mesmo DNA e começou a se aventurar em outros espaços. Daí começou a surgir calças, vestidos, peças que completam o que a gente se propõe a fazer para o estilo de vida.

Quando que essa evolução começou dentro da marca?

Andreia: Isso foi há três coleções, essa de verão é a terceira com um mix mais completo, porque a gente percebeu a necessidade de fazer algo mais que camisetas. A nossa marca tem muito de lifestyle e a gente quer passar esse lifestyle criativo, compondo todo o look. Nessa coleção a gente foi mais além, transpondo as estampas que eram das camisetas para o tecido inteiro, estampas corridas sempre com o DNA da Vish!, respeitando essa coisa de ilustração manual, como se cada peça passasse pela nossa mão.

Sobre a coleção de verão, o que mais pode ser dito?

Luiz: Pra essa coleção a gente fez um processo de redescobrimento nosso, “ta, a gente quer fazer um tecido estampado, mas o que é um tecido estampado da Vish!?” e a gente passou a questionar o que era a Vish!. O que a Vish! tinha de próprio? O que as pessoas viam como Vish!? Durante esse processo a gente começou a pesquisar referências que a gente achava interessante e acabou encontrando a Oficina Vienense (Oficina de Viena), que é Wiener Werkstätte, que era uma vanguarda do início do século XX, tinha uma coisa de juntar arte, o artesão, o designer e a indústria. Tinha também toda uma área têxtil, de estampas. A gente achou muito legal, porque das escolas de vanguarda, essa tinha uma área têxtil bem forte. Todos os produtos saiam com três selos, o da escola, o do designer e o da pessoa que produziu. Isso mostrava que não era valorizado só o criador, mas também o modo de fazer as coisas. E a gente começou a se identificar. Eles tinham toda uma história por trás da estampa corrida que tinha muito do pessoal, do humano. É um pouco do que a Vish! faz, a gente gosta se envolver com o desenho. Mas para chegarmos neles foi um tanto complicado, porque não tem muito material sobre eles.

Andreia: Esse movimento durou pouco, como muitas escolas acabou terminando. O que a gente fez foi pesquisar muito em bibliotecas. Procuramos sair da internet e pesquisar em livros de história da arte e nesse processo de pesquisa a gente descobriu outra inspiração, que foi justamente o cenário da pesquisa. A própria biblioteca se tornou uma influência forte na coleção.

Luiz: A gente percebeu o quanto é legal sair da internet e deixar o caminho da pesquisa ir te levando e o próprio ambiente era interessante. Acabou que misturamos a estética da vanguarda, a inspiração da biblioteca num grande bolo Vish!.

Andreia: Esse trabalho de pesquisa é uma coisa que a gente gosta muito que diz respeito ao repertório, cada vez mais as coisas se tornam superficiais e faltava um conteúdo, que é e uma coisa de biblioteca. A diferença de ler um post e ler um livro. Isso traz uma profundidade ao trabalho. Acho que isso vai virar parte da marca, porque foi muito gostoso. Até o tempo se torna diferente quando se está lá. Se passa uma tarde toda pesquisando sem perceber o tempo, pois o ritmo que estamos acostumados é muito diferente daquela ocasião. Às vezes até pra registrar a imagem era mais complicado, não existe mais o CTRL C CTRL V. Se trabalha muito com a memória também, coisas que se conseguia captar naquele momento.

Esse processo de criação faz parte da marca, essa fundamentação até pela identidade da marca deve refletir no produto…

Andreia: Sempre quando começamos uma coleção nova nós começamos pela pesquisa. A nossa pesquisa vai lá atrás. “Ta, coleção nova, o que está acontecendo no mundo? Mas por que isso aconteceu?…” Então nós sempre analisamos o que está acontecendo para daí poder tirar alguma coisa que vai servir como inspiração para a coleção.

Luiz: Engraçado que o que eu e a Andréa gostamos são coisas muito diferentes. Eu, por exemplo, adoro séries de TV, tenho um gosto muito pop para algumas coisas e a Andreia…

Andreia: Eu sou mais retrô…

Luiz: Tem os filmes que ela vê, que ela tira da cartola… E a gente tem essa troca, o que um e outro observa a gente discute e acaba saindo umas coisas que se não fosse essa dinâmica, não sairiam dessa forma. E acho que isso é que dá a graça do trabalho.

Sobre mercado, como que vocês se vêm nesse mercado e nesse evento? Como vocês vêm a valorização do design nesse mercado?

Andreia: A iniciativa deste evento foi superimportante. Uma coisa que eu percebi quando estava assistindo os desfiles foi essa coisa de se ter um desfile para mostrar a coleção, não pelo “auê”, ou pela pessoa que estará na primeira fila. Um desfile lento que permite tempo para observar a roupa em movimento no corpo dos modelos.

Luiz: Os desfiles têm que ter a visão da marca. Pra gente foi importante apresentar a coleção nesse formato de desfile. Porque as pessoas conhecem mais as camisetas que são nosso produto consagrado e acabam colocando a Vish! numa classificação. Assim, com o desfile, a gente conseguiu garantir que as pessoas entendam o nosso pensamento, qual é a nossa ideia, dar mais clareza. Não fica aquela edição de uma loja, de um post de um blog…

Andreia: …ou mesmo de uma campanha, porque por mais que a gente consiga transmitir alguma coisa através desses meios eu acho que no desfile a gente consegue ter uma visão mais completa do que o designer propõe. Teve gente que veio depois do desfile, perguntou, olhou e entendeu muito melhor o que é a marca.

E como novos designers de uma marca autoral, existe alguma resistência do mercado ou essa barreira não existe?

Luiz: O mercado é um desafio. A gente sabe que a marca não tem um público gigantesco, ele é bem definido e restrito, até pela identidade da marca, que tem uma certa sofisticação. Mas a gente percebe que tem uma procura muito interessante.

Andreia: Quando nós começamos a marca, nós tomamos como filosofia o que a gente gostava, coisas que a gente realmente acreditava e isso é passado para o nosso produto. Ter esse affair com o nosso produto é o que valoriza a marca, o retorno acaba vindo de uma maneira espontânea e gradativa a cada coleção. A gente ainda percebe as dificuldades de entrar no mercado, mas a gente enxerga que existem outros meios de mostrar e vender o nosso produto. A própria loja on-line, na qual a gente vê uma certa fidelização, tem gente que compra uma peça, retorna depois e compra mais e depois novamente. É um cliente que se identifica com a gente, que às vezes é carente, não encontra onde comprar essas peças.

Existe um espírito colaborativo entre vocês e outros novos designers. Mesmo que o mercado tenha uma concorrência desleal, às vezes, vocês mantêm essa característica.  De que modo é pensada essa colaboratividade e como vocês se posicionam nesse sentido?

Andreia: Essa colaboração no começo é fundamental. Uma marca nova com o nosso perfil, sozinha acaba perdendo força. Às vezes é só uma troca de informações, troca de fornecedores, troca de contatos, isso enriquece todo mundo.

Outra questão é que a nossa marca é muito nossa, ela tem a nossa cara. Talvez por isso a gente nem vê tanto uma concorrência nesse sentido, pois a gente se expõe muito nessa marca.

Luiz: A gente não tem medo que vejam nossa estampa, porque a gente pensa “o que vão fazer com uma estampa que é a nossa cara numa outra marca? Não faz sentido. Elas só fazem sentido para a gente. E que bom que a gente consegue fazer coisas com a nossa cara.

Como vocês vêm o futuro da marca?

Luiz: a gente sabe que a Vish! nunca vai ser um mega conglomerado…

Andreia: A gente quer continuar mantendo essa característica autoral. Lógico que a gente quer crescer, mas isso vai passar pelo crescimento do nosso trabalho também.

Luiz: A gente gostaria de ser visto como um referencial de lifestyle criativo. Quem sabe fazer, até pela nossa inquietude, outras coisas além de roupa. Dá pra fazer muita coisa ainda e a gente tem muita vontade de fazer outras coisas, materiais…

Andreia: Tem algo muito importante na nossa trajetória que é a nossa maturidade, a gente sempre deu um passo após o outro. Fomos aprendendo a cada etapa até chegarmos ao que a gente é hoje. Então está tudo muito fundamentado.

vishland.com

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