Sul Fashion Week | Entrevista Anlè

Posted on 13/06/2011 por

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Estamos em estado de graça com tudo que nos aconteceu nos dias de Sul Fashion Week. Uma enxurrada de novidades e contatos legais que nos confirmam o potencial criativo brasileiro, nada daquele discurso falível de identidade nacional, do qual duvidamos. Marcas, pessoas, mentes pensantes. Nosso primeiro contato foi com o fotógrafo Juan Mazzola num daqueles papos de café, o que se estendeu para um sushi e um barzinho, sendo o nosso assunto de pauta a criatividade versus as limitações impostas por todo um mercado com formas engessadas de tratar moda e comportamento, já no século XXI. Depois passamos por todos os stands e falamos com os criadores, aqueles já anunciados e outros que nos surpreenderam muito positivamente.

E vamos aos papos. Nossa primeira entrevista, munidos de gravador para não perder nada de importante e uma vontade de conhecer cada um dos entrevistados, foi com a Anlè. A marca tem um ano e é de Blumenau – SC. Suas coleções se baseiam em uma malharia com detalhes e aplicações ao gosto da criadora. Por isso mesmo a marca tem a identidade de sua designer. A Dycassia de Oliveira tem formação em direito, mas exercer a profissão nunca foi sua vontade, após uma especialização em design de calçados e bolsas no IED ela montou sua própria marca e está batalhando para colocar no mercado.

De onde surgiu e como surgiu a marca?

O nome surgiu num papo com um amigo muito querido em São Paulo, primeiramente seria uma marca somente de blusas. Então eu busquei um nome com relação à parte de cima, blusa, então Anlè significa parte de cima em haitiano. A primeira coleção a gente fez basicamente blusas e três partes de baixo só para compor com as blusas. Na segunda coleção sentimos falta da parte de baixo e começamos a fazer partes de baixo também, então o nome já não faz mais tanto sentido, mas já havíamos incorporado o nome e ele já faz parte da minha vida.

Como foi trocar essa mudança de direito para moda?

Bom, meu pai sempre soube do que eu queria, mas como quando eu entrei na faculdade eu era muito novinha e não sabia pelo que optar e moda não era uma faculdade que as pessoas viam grande futuro. Então eu entrei e terminei a faculdade e quando eu terminei ela eu falei “agora eu já posso entrar no que eu quero”.

Como que você imagina entrar nesse mercado? Existe alguma estratégia para atingir um público que é seu, buscar e encontrar esse público?

A gente criou uma estratégia que é pensar em onde estar. Na primeira coleção a gente fez uma parceria com uma loja pop up de Jurerê que é dividida por corners, então a gente tinha um espaço dentro da loja que era nosso. Na segunda coleção a gente buscou aumentar a abrangência, porque precisa de venda, caso contrário não tem como a marca sobreviver. Foi bastante difícil por ser inverno e o nosso é muito curto e ensolarado e as pessoas não buscam muitas roupas muito pesadas.

A feira já está trazendo resultados visíveis?

Ainda é muito cedo pra falar, mas acredito que ao menos uma boa visibilidade a gente vai ganhar sim. Muitos lojistas vem para conhecer, depois chegam em seus lugares novamente e começam a analisar cada material que pegaram na feira e analisar cada marca, se elas fecham com seu perfil.

Nós achamos muito legal os desfiles ser todo de marcas novas. Isso foi intencional ou ocasional sob o seu ponto de vista?

Acredito que pelo fato de o Sul Fashion Week também ser um bebê, acabou de nascer, ainda deve haver algumas resistência de algumas marcas em fazer parte do evento, então eu estou certa de que o segundo vai ser melhor que o primeiro. Creio que foi por isso também que as marcas novas acreditaram no evento, pois todo mundo que é novo busca se juntar aos novos que tenham alguma compatibilidade de idéias ou de valor para conseguir seguir em frente, afinal é sempre difícil começar.

Estamos muito felizes em ver o evento por essa valorização dos novos também. A gente veste a mesma camisa, apreciando quem está criando coisas legais e autorais e tem um certo espírito colaborativo. E isso ser feito aqui em Santa Catarina…

Santa Catarina é um Estado lindo de se viver, a gente tem praias, um clima. Acho que tem uma mente muito criativa. Acredito que aqui possa ser um pólo de muito potencial de moda, até por termos um pólo têxtil incrível, tudo se produz aqui, então não tem porque não acontecer esse boom para o Estado.

Como que a Anlé se comunica, como que a marca chega nas pessoas?

Nossas fotografias têm apelo criativo, as fotografias foram feitas pela Susana Pabst, da Revista Nanu! que é uma revista com editoriais de moda incríveis, ela tem uma proposta diferente. Desde o começo nós temos todas as mídias sociais, Twitter, Facebook, Blog, site bem construído, onde se tem acesso a qualquer informação da empresa. A internet é um meio mais abrangente que se consegue chegar a qualquer canto do mundo. A gente também vende online, num site que é o fashioníssima, que é de uma amiga minha.

Como que tu vê o mercado atual?

Eu acho que o mercado está um pouco… como que eu posso dizer?… eu acho que está um pouco prostituído. Muita gente lançando marca sem propósito, sem proposta, sem identidade. Eu acredito muito na identidade do produto e que uma marca possa chegar até um ponto onde é difícil de ela aumentar, chegando num ápice onde existe a possibilidade de cair, é aí que entra a inovação, quando se chega nesse ponto se pode mudar, mudar a direção, mudar o foco, mas é preciso ter alma, não ser só uma produção em massa.

E o mercado futuro? Acho que muitas das pequenas marcas já estão dando mais informações de moda, talvez mais do que muitas das grandes. As mentes criativas usam muito pouco pra criar uma coisa nova. Talvez seja pelo experimento mesmo, as pessoas ficam muito viciadas no que vendeu, no que fez sucesso. Se fez sucesso eles fazem de novo na próxima, e de novo, e de novo e uma horas isso vai perdendo força, porque uma hora é isso e amanhã não é mais. Talvez as pessoas que vistam Anlè hoje amanhã não vistam mais.

Existe ainda o percentual de pessoas que veste uma roupa com o pensamento “esse é meu estilo” é  muito pequeno, ninguém é tão fiel e isso é normal, eu também sou assim, já fui fiel de várias marcas que hoje não sou mais. Eu sou muito assim “mude”, eu acordei hoje com vontade de vestir azul e eu vou vestir azul, e muito com o que eu to passando na minha vida

Como você vê o incentivo de produção de produtos de moda no Estado?

Acho que tudo é gradativo, tem que ter um pouco de calma. Acho que o Sul Fashion Week é um start bem considerável. Tem evento de moda em São Paulo, em Minas, na Bahia, no Rio e Santa Catarina ainda não tinha um grande evento de moda que abrangesse tudo, novos criadores e que apoiasse novas ideias. Acho que está acontecendo um crescimento nesse sentido.

Poderia ser mais fácil, claro, mas como facilidade não é a grande palavra. Como tudo que é fácil demais acaba tirando o tesão de se fazer alguma coisa diferente. Acho que a dificuldade é também uma porta de oportunidade.

Existe uma pretensão de vender fora do país?

Tenho sim essa pretensão, mas falta um caminho a ser trilhado ainda. Primeiro conquistar o quintal de casa.

anle.art.br

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